odiamos o Outro, hoje, sem subterfúgios
— a céu aberto muita boca é latrina —
chegamos ao ponto de não retorno ao
que éramos antes da morte da poesia

nosso trabalho é intermitente
— intermediado por aplicativos —
nossa vida já gasta é por vezes
reiniciada ao teclarmos F5

meu algoz é um algoritmo que nesse instante
faz minha voz sagaz cruzar labirintos,
feitos de silício, até o silêncio das gentes

eu cá da minha bolha vejo que odiamos
com os olhos, hoje, sem cerimônia,
a céu aberto, tudo que se move incerto

meu algoz é um algoritmo que nesse instante
faz poemas e pessoas irrelevantes mas por ironia
conduzirá essa trova a quem interessar possa[1]


  1. Imagem: Frame documentário GIG: A Uberização do Trabalho (2019), direção de Carlos Juliano Barros, Caue Angeli e Maurício Monteiro Filho ↩︎