Brevemente publicarei por aqui as cartas que tenho escrito para a pequena Helena. As Ilustrações serão de Binho Barreto. Por enquanto, a primeira carta.

Cara Helena,

Acordei hoje. Tomei café. Não tomei banho. Um beijo e me despeço de. Dois ônibus e já estava no trabalho. Durante o trajeto, a playlist era Phil Collins e Supertramp. Três canecas de café, água. De repente, desejo de lhe escrever. Algumas linhas e sinto que devo me apresentar. Será a primeira vez que escrevo isso: início de lágrima, algo na garganta. Um mini drama se desenha na boca do estômago. Bom, enfim, quem lhe escreve aqui é seu pai.

Dizê-lo direto, sem contornos, soou nada poético e rude para mim. Soou como o óbvio dos dias: levantar, tomar café, beijar esposa, tomar um ônibus, sentar-se na mesa de trabalho. Ser seu pai será minha rotina a partir de julho. Mas já começou em mim, não sei precisar o momento, sê-lo para o resto de minha vida.

E esse parágrafo estava reservado para dizer o quão belo foi perceber seus movimentos nos primeiros exames de ultrassom. Acrescento também a estranheza: Helena não era sereia, anjo, fada. Apenas um girino! Sim, a aulas de ciências lhe darão clareza sobre isso. E girinos há de todos os tipos. Lembro que na infância observava com meu irmão eles nadando num tambor de óleo que usávamos como reservatório de água. A água encanada não havia. Irei poupar-lhe dos motivos. Esse parágrafo eu escrevi para que ríamos juntos.

Ouvir seu coração fez, por instantes, o meu parar. Levitar para ser mais preciso. E o lugar comum das sentenças anteriores me fez ganhar, para sempre, todos os concursos de redação: as do presente, do passado e do futuro. Porque já não me importam mais a originalidade do texto ou o cemitério das gavetas.

Ouvi seu coração pela primeira vez por meio de uma máquina retirada dos filmes de ficção. Ela amplificava o som da vida de um ser minúsculo. E, simplesmente, não sei como terminar a primeira carta para um ser que ainda não veio plenamente pousar sobre minhas mãos. Talvez se eu apenas deixar uma vírgula — como Clarice Lispector — no final desta página, essa carta — a nossa primeira carta! — , nunca termine,