Quando lhe digo "Deus lhe proteja"
eu não preciso crer em Deus e —
mesmo a minha fé — pode ser irreal,
algo falsa, dúbia ou a própria dúvida.

Quando lhe digo "Deus lhe proteja"
é mais que um "bom dia",
menos que um "adeus"
na minha cabeça.

(...)

Fui à padaria e voltei com pães
e esse arremedo de poema
embrulhado no estômago.

Tudo porque antes de sair disse à atendente
— a voz abafada por uma máscara de pano —
esse "Deus lhe proteja" insolente e tristonho.

Quem nos diz quando começa
ou termina em nós o humano?
De tudo apenas o medo, ali, era sincero.