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A poesia ela é intrusa.[1]
Desprega-se da música
E não se revela nunca:
É cruel com seu seguidor.

Da janela ao corredor,
Minha tempestade maior,
Atravessa a angústia
E a vida do criador.

Da poesia sou seu desertor.
Mas flor melhor não havia
Que a flor guardada na rotina[2]
E aprendi a ser pescador.

Colhi o caos que organiza,
Uma rede de antologias.
Não desprezei nenhuma flor.
Por indeterminado tempo

Adiei o meu silêncio:
Dia-a-dia eu cantor,
Com manhãs na retina,
Anuncio a poesia, o cio,

A cidade, o circo, a loucura.
A tudo dando guarida.
Ainda que nada me cure:
Nem o amor nem a medicina.


  1. Escrito em 24/04/03 sob o título "Antologia" numa oficina literária com Antônio Cícero e Affonso Romano de Sant'anna. ↩︎

  2. "A flor guardada na rotina" é ler no noticiário: "Para acompanhar filhas autistas, pedreiro faz aulas de balé, Pai é o único homem entre nove mães." Redes sociais podem produzir sentimentos de solidão e angústia. Exercitar o olhar para que este capte as coisas positivas da vida é exercício diário. Não se trata do "jogo do contente". É mais como uma decisão ética e estética perante a vida. ↩︎