Segundo Mês-Aniversário de Helena Lopes Viana (Foto: Giselle Kalil)

Quando sete camadas de pele ainda nos separavam, escrevi:[1]

As pessoas nos alertam sobre ter filhos.
A violência no mundo e a escassez de nuvens
são motivos suficientes para adiar,
até à margem do biológico,
a vida em protótipo.
E nos comunicam suas fantasias:
Que “o melhor” foi não os ter tido,
que “dá para rir e chorar com eles”
ou que foi mera decisão de alguém sem juízo.

As pessoas nos alertam sobre ter filhos
enquanto amam lindamente seus gatos.
Outras vão aos extremos: de que eu não deveria
ou que eu tenha logo o segundo.
Como se houvesse um número exato,
quem sabe, certezas a granel
estampadas no horóscopo.
As pessoas nos alertam sobre ter filhos.
São alarmes sinceros como os de Chernobyl.[2]

Mas, por favor, não esvaziem as cidades.
Tampouco maltratem as luas.
O único que sei é que abandonei a toxidez.
Eu gesto os dias como se cada segundo que falta
fosse uma célula do pequenino ser
que me aguarda a sua vez.
Agora serei o bombeiro que atende o primeiro chamado.[3]
Sem medo, ainda que tudo seja inóspito.
Daqui em diante eu sempre me sentirei povoado.


  1. A ideia do poema nasce da observação sobre a maneira como as pessoas reagem ao fenômeno da gravidez. São reações diversas. Em todas elas observei algo que chamei no poema de "fantasia": ninguém sabe como seria ter um filho até que o tenha. A opinião das pessoas parece partir de uma espécie de entre-lugar. Dilema que Vinicíus de Moraes expressou muito bem no poema enjoadinho: "Filhos melhor não tê-los / Mas se não os temos como sabê-los? (...) Se não os temos quanto silêncio (...)" ↩︎

  2. O poema já tinha a primeira estrofe. Não sabia como dar sequência até que surgiu uma dúvida banal: assistir ou não a série Chernobyl (HBO) que acabara de estrear? Li muito rapidamente sobre a história e assisti cinco minutos do piloto. Parei por aí. Surgiram então as imagens: o alarme "sincero", a "cidade fantasma", o lugar "inóspito", o "quanto silêncio". O novo ser como antídoto à desolação humana. ↩︎

  3. Vasily Ignatenko foi o bombeiro que atendeu o primeiro chamado quando ocorreu o desastre na Central Nuclear de Chernobyl. Aos 25 anos, exposto a doses excessivas de radiação, morreu duas semanas após a explosão. Saiba mais aqui. ↩︎