POR FAVOR, ME CHAME PELOS MEUS VERDADEIROS NOMES[1]

Não diga que eu partirei amanhã
— ainda hoje eu estou chegando.

Olhe fundo: estou chegando a cada segundo
para ser broto em um ramo da primavera,
para ser passarinho, asas ainda frágeis,
que aprende a cantar no novo ninho,
para ser lagarta no coração da flor,
para ser uma joia escondida na pedra.

Eu ainda chegarei, a fim de risos
e lágrimas, medo e esperança.
O ritmo do meu coração é o início
e o fim de tudo que vive.

Eu sou a libélula
metamorfoseando-se na superfície do rio.
E eu sou o pássaro que se inclina
para engolir a libélula.

Eu sou o sapo nadando feliz
na límpida água da lagoa,
e eu sou a cobra d’água
que silente se alimenta do sapo.

Eu sou a criança em Uganda, pele e ossos,
pernas finas feito bambus do bambuzal.
E eu sou o mercador de armas,
vendendo para Uganda armamento letal.

Eu sou a menina de doze anos,
num barquinho refugiada,
que no oceano se lança depois de ser,
pelo pirata do mar, violentada.
Eu sou o pirata,
meu coração não é capaz ainda
de ver e amar.

Eu sou membro da cúpula do Partido,
com muito poder nas mãos.
E sou o homem que pagará, por sua gente,
a "dívida de sangue" morrendo,
no campo de concentração, lentamente.

Minha alegria é como a primavera,
tão quente faz as flores brotarem por toda Terra.
Minha dor é como um rio de lágrimas,
tão vasto que os quatro oceanos preenche.

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes,
daí ouvirei meu choro e risos ao mesmo tempo,
daí verei que minha alegria e dor são uma coisa só.

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes,
daí eu posso despertar e então a porta do meu coração
estará aberta, a porta da compaixão.
[2]


  1. Poema-notícia do mestre budista Thich Nhat Hanh. Por ofício, em seu monastério na França (Plum Village), dentre centenas de cartas de refugiados asiáticos, Thich Nhat Hanh soube da violência sexual sofrida por uma garota de 12 anos num dos barcos com refugiados. Fora violentada por um pirata. Segundo o monge: "Depois de uma longa meditação, escrevi o seguinte poema. Nele, há três pessoas: a menina de doze anos, o pirata e eu. Será que podemos olhar um para o outro e nos reconhecer no outro? O título do poema é “Chame-me pelos meus nomes verdadeiros, por favor”, porque eu tenho muitos nomes. Sempre que ouço um desses nomes, tenho de dizer, 'Sim'". Fonte: olugar.org ↩︎

  2. Tradução livre de Anízio Vianna ↩︎