dezembro 9, 2018

Thich Nhat Hanh

Thich Nhat Hanh é monge budista, pacifista, escritor e poeta vietnamita. "Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes" é um dos seus poemas mais célebres, aqui traduzido livremente.

Thich Nhat Hanh

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes

Não diga que eu partirei amanhã — ainda hoje eu estou chegando.

Olhe fundo: estou chegando a cada segundo
para ser broto em um ramo da primavera,
para ser passarinho, asas ainda frágeis,
que aprende a cantar no novo ninho,
para ser lagarta no coração da flor,
para ser uma joia escondida na pedra.

Eu ainda chegarei, a fim de risos
e lágrimas, medo e esperança.
O ritmo do meu coração é o início
e o fim de tudo que vive.

Eu sou a libélula
metamorfoseando-se na superfície do rio.
E eu sou o pássaro que se inclina
para engolir a libélula.

Eu sou o sapo nadando feliz
na límpida água da lagoa,
e eu sou a cobra d’água
que silente se alimenta do sapo.

Eu sou a criança em Uganda, pele e ossos,
pernas finas feito bambus do bambuzal.
E eu sou o mercador de armas,
vendendo para Uganda armamento letal.

Eu sou a menina de doze anos,
num barquinho refugiada,
que no oceano se lança depois de ser,
pelo pirata do mar, violentada.
Eu sou o pirata,
meu coração não é capaz ainda
de ver e amar.

Eu sou membro da cúpula do Partido,
com muito poder nas mãos.
E sou o homem que pagará, por sua gente,
a "dívida de sangue" morrendo,
no campo de concentração, lentamente.

Minha alegria é como a primavera,
tão quente faz as flores brotarem por toda Terra.
Minha dor é como um rio de lágrimas,
tão vasto que os quatro oceanos preenche.

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes,
daí ouvirei meu choro e risos ao mesmo tempo,
daí verei que minha alegria e dor são uma coisa só.

Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes,
daí eu posso despertar e então a porta do meu coração
estará aberta, a porta da compaixão.


Tradução livre: Anízio Vianna